Loucura: o que você precisa saber sobre a luta antimanicomial

A loucura e a sanidade

Hospício, sanatório, asilo, manicômio… São muitos os nomes dados aos espaços de reclusão para aqueles que perturbam a ordem de convivência dos homens. Se por um lado a loucura é vista atualmente como uma doença a ser eliminada – ou então escondida dos demais -, isso nem sempre foi assim. O que se torna evidente é a acentuada necessidade de exclusão daqueles que perturbam a coesão grupal dos povos. Quando foi que tudo se tornou caótico?


A história da loucura é extensa e começa no Ocidente ao mesmo tempo que se formam as primeiras sociedades. Desde o nascedouro da humanidade houve um acentuado interesse humano em buscar explicações para os comportamentos dos seus semelhantes, registrando-os como “normais”, isto é, admitidos sem relutância pela comunidade, ou “desviantes”, os quais precisavam ser moldados mediante uma série de estratégias culturalmente instituídas.

Na antiguidade, a loucura era vista através de diferentes enfoques. Através do mitológico, como era o caso de Homero; de distúrbios psicológicos, como propõe Eurípedes; e de distúrbios somáticos, como é o caso de Hipócrates. Bastante se fala sobre as contribuições hipocráticas na definição da melancolia, um caso específico de patologia. Para ele, a doença era causada por um descompasso entre os quatro humores corporais: sangue, fleugma, bílis amarela e bílis negra. Um excesso de bílis negra era responsável pelo acometimento da melancolia, caracterizada pela falta de entusiasmo e predisposição para atividades diárias.

Idade Média

Durante a Idade Média e, em escala menor, no decorrer da Modernidade Clássica, registrou-se a acentuada tendência de os comportamentos humanos – assim como uma ampla gama de fenômenos – serem avaliados segundos as lentes religiosas. No âmbito do catolicismo romano, a razão só era plenamente atingida como o apoio à verdade da fé e o conhecimento se dava como um ato de iluminação divina. Se a razão está intimamente relacionada com a fé, o desarrazoado é aquele que tem sua fé abalada, seja por heresia ou possessão demoníaca. Nestes termos, não havia doentes mentais, mas sim hereges.

O movimento de repreensão da heresia ficou bastante conhecido com o galgar do período medieval. A caça às bruxas, como ficou conhecido, foi um movimento iminentemente religioso, cujo enfoque era o controle da heresia e a manutenção do poder cristão. Ele consistia, basicamente, em exterminar mulheres que pudessem compactuar com o diabo através da magia negra.

Caça às bruxas

Todavia, nem todas as mulheres que eram enviadas à fogueira eram de fato "bruxas". Existia, na época, uma espécie de crivo para identificação de mulheres bruxas, mas seus delineamentos não eram muito precisos. É em 1484 que aparece a primeira bula contra a feitiçaria, a Summis desiderantes affectibus, e o papa Inocêncio VIII começa sua batalha contra as feiticeiras. Alguns inquisidores publicaram um tratado máximo contra a feitiçaria, O martelo das feiticeiras, que prometia ajudar no reconhecimento, interrogação e na tortura contra as infelizes mulheres que mantinham pacto com o demônio.

Vindas de zonas rurais, as mulheres passaram a ocupar os centros urbanos: aquelas que não tinham marido ou pai foram consideradas suspeitas pelas práticas que exerciam. Não obstante, na herança rural dessas mulheres havia saberes de cura extrínsecos à ciência médica da época. Isso foi o suficiente para que as viúvas, pobres, provindas do meio rural com domínios de cura fossem a maior parte das mulheres condenadas por serem bruxas - ou curandeiras e mulheres sábias, como também eram chamadas.

Muitas mulheres foram condenadas à fogueira por seus comportamentos distoantes dos costumes da época, mas uma parcela de mulheres apresentavam comportamentos um tanto quanto curiosos: paralisias, convulsões, contrações faciais, voz alterada… Enquanto tais comportamentos eram suficientemente claros de indicação de possessão demoníaca para a corte da época, três séculos depois a psicanálise se inicia com o estudo de mulheres histéricas. Possivelmente, mulheres que foram sentenciadas à fogueira seriam tratadas pelo método hipnótico por Jean-Martin Charcot e posteriormente pelo método psicanalítico por Sigmund Freud.

A modernidade

Com o avanço das ciências e a retomada da razão como princípio filosófico fundamental, a modernidade traz avanços gigantes para a sociedade. Por volta do século XV, o problema da lepra que assolara a Idade Média entra em declínio. Não mais existe a figura do paciente com lepra para ser confinado e excluído do mundo sadio. Isso traz pelo menos duas consequências: a representação social que se cria do leproso continua a mesma; e  o sentido do confinamento não é questionado.

No começo do século XVI, a loucura não tinha um lugar próprio para ser ocupado. Os loucos eram tanto aqueles que embarcavam em uma experiência cósmica, quanto aqueles que tinham problemas de relação consigo próprios. Não existe a ideia de que o louco é aquele que sofre de perturbações mentais, porque não se sabia de fato o que era o fenômeno da loucura. Inclusive, é possível que a loucura entendida naquela época tenha hoje outro nome, e vice-versa.

Embora o Renascimento tenha trazido novas explicações para o fenômeno da loucura através do resgate das ideias patológicas propostas por Hipócrates, a visão crítica da loucura passou a vigorar e a de experiência cósmica foi abandonada. Ela passou de uma condição a um objeto de estudo. Para o diagnóstico, as perturbações mentais eram  o crivo. Isso porque a loucura passou a ser entendida e considerada apenas em relação à razão: se de um lado elas se recusam, de outro elas se fundamentam. Nesse sentido, ela passou a ocupar o lugar do reverso da razão: o louco é aquele que "perdeu o juízo", tornando-se um desarrazoado.

Loucura e internamento

A partir do século XVII, a relação entre loucura e internamento se estreita. Se a Idade Média havia inventado a segregação dos leprosos, o Classicismo inventou o internamento. Mas esse movimento não tinha como caráter primário o de ser terapêutico. Era, antes de tudo, um movimento político, social, econômico e moral.

Michel Foucault mostra que não apenas loucos eram internados em hospitais: lá também jaziam todos os tipos de minorias excêntricas não inseridas no arranjo social, como prostitutas, homossexuais, epiléticos, alcoólatras... E se esses espaços funcionavam como controle social para uma determinada sociedade em um momento específico da história, nem sempre foram os médicos que trataram dos enfermos. Como o espaço era reservado para moribundos, muitos dos que lá atuavam eram religiosos, buscando salvar a alma daqueles que ali tinham a presença esquecida.

A nova ordem social fez surgir o advento do miserável, do pobre, estranho ao pensamento do período medieval. A pobreza não mais passa a ocupar um lugar sagrado de sacrifício, mas como um atraso no desenvolvimento econômico e encerrada em sua culpabilidade. O Estado ocupa o lugar da Igreja nas tarefas de assistência e lança outro olhar sobre a miséria. A partir do século XVII, o louco deixa de ser aquele que era acolhido pela sociedade e passa a ser encarado como perturbador da ordem social. O olhar sobre o fenômeno da loucura passa a ser, em última instância, moral.

Loucura e Medicina

Somente no século XVIII que a loucura encontra seu lugar de estudo com o advento da ciência positivista. Nesse momento histórico surge cumplicidade entre o médico e o enfermo, e a loucura pode ser estudada cientificamente. A relação com o louco e com a loucura se torna mais íntima, buscando observar de que forma se dão e como diminuí-la. Para efeito de estudos, surgem duas correntes de leitura sobre as causas da loucura, estranhas à concepção anterior de internamento.

O primeiro deles era a visão organicista, que propunha que os desarranjos intelectuais derivavam de causas orgânicas. Para tanto, deveriam ser combatidos através de intervenções corpóreas. A segunda visão era a psicológica, que procurava compreender e tratar a loucura através de práticas psíquicas.

Embora alguns vejam essa divisão como um ganho para o estudo e tratamento da loucura, a própria Psicologia se organizou de forma a culpabilizar a loucura enquanto expressão moral. Ela não surge como forma de procurar a verdade da loucura, mas para separá-la do desatino. Ou seja, a doença procede do orgânico, enquanto o que pertence ao desatino é ligado ao psicológico.

Os médicos ocuparam os espaços de internamento não pelo avanço da medicina e compadecimento com os pacientes, mas em decorrência de um medo generalizado de contágio moral e físico. Anteriormente os leprosos ficavam afastados da cidade. Nesse momento, os loucos estão internados nos centros da cidade, e o medo que paira nas fantasias dos sadios é aterrorizada pela proximidade.

Ao longo do século XVIII, loucura e internamento passaram a se unir ainda mais, não funcionamento como uma libertação da loucura. O que houve foi uma transformação na consciência da loucura: ela tornou-se mais fiel ao que poderia dizer de si mesma.

O momento de transição: entre o século XVIII e o XIX

O internamento como foi concebido nos séculos anteriores não foi suficiente para sanar os problemas que propunha. O fator que colocou em xeque seu pretenso fim não foi interno, mas de caráter externo. Sem conseguir devolver as pessoas para uma vida produtiva, não havia motivos para mantê-los. O desemprego passa a ser combatido e esses sujeitos precisam ser reinseridos na produtividade para o desenvolvimento do Estado. Os pobres não são mais escondidos e internados, mas dispostos para que sejam absorvidos como mão-de-obra barata.

O grande problema desse pensamento é o pobre doente. Ele será o usuário dos serviços de saúde mental, não sendo mais confundido com o miserável. Separa-se, então, a miséria - ligada aos problemas econômicos -, do desatino. A loucura reaparece, no final do século XVIII, liberta das antigas formas de experiências a qual estava vinculada. Cabe ressaltar que esse fato não aconteceu por filantropia ou reconhecimento científico, mas em decorrência do isolamento da figura do desarrazoado.

Quem passa a ocupar o local do internamento são os loucos. Cada vez mais diminuem-se as internações dos grupos com faltas morais, da libertinagem, mas o louco continua sendo alvo das instituições de isolamento. Todavia, no início do século XIX, surge uma corrente que procurou dar um estatuto hospitalar à loucura, em detrimento às antigas práticas de internação.

O século XIX

Foi com Philippe Pinel, diretor do hospital psiquiátrico Salpêtrière, que no início do século XIX o  hospital psiquiátrico deixou de ser um local de aprisionamento de loucos para um espaço terapêutico. Ao invés de seguir os tratados clássicos da psiquiatria, ele optou por soltar os pacientes para circularem livremente pelas dependências do hospital e seus arredores.

Suas ideias buscavam a reeducação dos alienados, de sorte que os médicos e o manicômio fossem instituições educativas feitas com firmeza, porém gentileza. No entanto, com o passar do tempo, esse tratamento esvazia-se de suas ideias originais e mantém-se o recurso de imposição da ordem e da disciplina institucional.

Os ganhos foram positivos, mas não foram suficientes para curar os enfermos e a prática da internação continuou sendo amplamente utilizada. É evidente que o trancafiamento daqueles que perturbam os cidadãos era a preferência da maioria, mantendo um pretenso controle social. Foucault é incisivo sobre esse ponto, argumentando que a loucura é fabricada pela própria sociedade, estando apenas circunscrita a um período específico de tempo e lugar.

A Itália de Franco Basaglia

Um movimento italiano do século XX foi inovador no tratamento à loucura e influenciou diversos países, inclusive o Brasil. Ao invés de usar medidas punitivas, ele criou reuniões entre médicos e pacientes e devolveu ao doente mental a dignidade de cidadão. Ainda hoje seus livros são estudados e suas ideias são amplamente discutidas e aplicadas. Foi através de suas ideias que surgiram as concepções da Luta Antimanicomial e da reforma psiquiátrica.

Frase de Aristóteles sobre a Loucura.

A reforma psiquiátrica no Brasil

A principal legenda que carregam a reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial é a desinstitucionalização com consequente desconstrução dos manicômios e dos paradigmas que o sustentam. A substituição por outros práticas terapêuticas e a centralidade da discussão da dignidade do doente mental são fundamentais para uma reversão do pensamento médico-biologicista e da própria sociedade e sua aceitação.

O modelo de assistência psiquiátrico brasileiro tem base na legislação de 1934. Ele tem como fundamento a hospitalização e o asilamento do doente mental, obedecendo bastante aos moldes de séculos passados. Como já foi discutido, esse modelo visa, antes de tudo, a segurança da ordem e da moral pública.

Quando tudo começou

Demorou quase meio século para que as ideias europeias de tratamento fossem adotadas no Brasil: elas só começaram no final da década de 1970. Até então optava-se por internações arbitrárias e automáticas, privando o paciente de sua liberdade e sequestrando-o para as instituições. O abuso de psicofármaco, a precariedade do espaço e das técnicas terapêuticas e o isolamento dos doentes mentais obedecia à lógica sanitarista de purificação da sociedade. O usuário do serviço não tinha perspectiva de ser reinserido na comunidade, enquanto muitos não chegavam a sobreviver em decorrência de erros médicos, tamanha superlotação dos espaços.

Em 1987, durante o I Encontro Nacional de Trabalhadores da Saúde Mental, toma forma o Movimento da Luta Antimanicomial, reivindicando uma sociedade sem manicômios. No dia 18 de maio ficou memorado o Dia da Luta Antimanicomial, relembrado todos os anos por aqueles que acreditam em formas dignas de tratamento do sofrimento mental.

Surgimento do CAPS

No final da década de 1980, após muito debate e luta dos interessados, surgiram novos serviços assistenciais, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e os Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS), derivados da Reforma Psiquiátrica Brasileira. O CAPS é dividido em diferentes grupos focais, atendendo usuários de álcool e drogas, pacientes psiquiátricos, crianças e adolescente. Ele funciona como uma rede assistencial entre o usuário e o hospital, prestando serviço de uma equipe multidisciplinar focada em saúde mental. É possível encontrar diferentes atividades de terapia ocupacional, consultas médicas e oficinas de arte, além de acompanhantes terapêuticos e assistência à família.

O advento desses serviços trouxe à tona consigo a discussão sobre a estigmatização daqueles que usufruem de suas atividades e daqueles que são vistos pela sociedade como loucos. Apesar dos avanços no campo da saúde mental e da extrema importância da Reforma Psiquiátrica, se anteriormente os pacientes eram vistos como objetos para técnicas terapêuticas, eles ainda hoje não são vistos como cidadãos que podem gozar de seus direitos.

A loucura e a situação hoje

Algumas políticas de combate ao uso de drogas atualmente optam pelo uso da internação compulsória. Com uma bandeira que pretensamente visa o fim dos espaços de consumo de crack, o uso da intervenção militar apenas sugere que por trás dessa política existe uma ideologia sanitarista. Como era de se esperar, a ação truculenta da polícia militar acabou por dispersar focos de usuários por outros bairros da cidade de São Paulo, espalhando e tornando o problema ainda mais difícil de ser solucionado. Resultado: o tiro saiu pela culatra.

Sem entrar em muito mais discussão, parece que já foi exposto o suficiente sobre os malefícios da internação. A utilização da internação compulsória já se demonstrou ineficaz em diversos lugares do mundo e tem a história ao seu lado como lastro dessa verdade. A celebração de 30 anos do movimento antimanicomial foi triste e dolorosa.

No que se refere ao tratamento dos usuários de drogas, existem, atualmente,  duas vertentes mais fortes. A primeira delas acredita na abstinência total, ou seja, que o paciente conseguirá manter-se longe de seu vício completamente. Em contrapartida, existe uma visão de redução de danos, que leva em consideração a improbabilidade (e talvez a falta de necessidade) da abstinência, visando minimizar os danos causados pelo uso irresponsável de drogas, como transmissão de doenças infecciosas.

O tratamento

Para o médico australiano Nicolas Campion Clark, da direção do abuso de substâncias da Organização Mundial da Saúde (OMS), a internação compulsória traz o risco de "criar uma barreira com o dependente", dificultando o tratamento, demonstrando que não funciona realmente na prática. O enfoque da redução de danos é o uso equilibrado através de práticas responsáveis. Um artigo científico sobre redução de danos conclui que a política em questão

se apresenta como um conjunto de práticas de saúde fundamentadas na perspectiva teórica que concebe a existência de diferentes formas de relação do homem com as drogas, nem sempre vinculadas a um consumo problemático e, nesse sentido, seus objetivos não se restringem à eliminação do consumo. As medidas propostas visam a um conjunto de políticas voltadas para a redução de riscos e danos relacionados a todo tipo de consumo potencialmente prejudicial, distanciando-se do enfoque da guerra às drogas (SANTOS; SOARES E CAMPOS, 2010).

Tratar sobre essas questão é extremamente delicado e sempre corremos o risco de cair em simplismos. Lendo um pouco na internet sobre o caso, deparei-me com um post de blog em que o autor relacionava a manutenção da Cracolândia com o movimento "psicopático" da extrema-esquerda. A crítica à manutenção de um ambiente desses é pertinente: de fato, o local tem diversas consequência para a sociedade - embora seja também uma causa da própria organização social. Mas associar um fenômeno complexo como a dependência e o uso do espaço com um grupo ideológico é uma alternativa muito simplista.

Talvez a maior dificuldade em tratar da temática da loucura, da drogadição e seus desdobramentos seja precisamente em estabelecer distâncias saudáveis entre os resultados científicos de experimentos com a população em questão e políticas ideológicas que privilegiam a moral em detrimento da ciência. Isso porque a dependência do crack está relacionada com diversos fatores (psicológicos e sociais), que são externos às áreas médicas, como moradia, alimentação, emprego e assistência geral.

Dificuldades

Apoiada em toda essa história, a abstinência parecia ter se comprovado ineficiente, tendo os profissionais de saúde optado majoritariamente pela política de redução de danos. Quem demonstrou a eficácia dessa última abordagem foi o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, com o projeto De Braços Abertos. Em nota oficial, o governo lançou que mais de 88% dos beneficiários do programa de redução de danos efetivamente reduziram o uso de crack.

Sob o comando de João Dória, as ações governamentais, completamente despreparadas, não levaram em consideração anos de estudos e não pouparam esforços para promover a internação dos usuários. A sede mortífera de aniquilar aquilo que incomoda por estar à margem é tão grande que joga-se séculos de história fora.

Inclusive, o tema é tão polêmico que está circulando pelas redes uma fala de 2013 do Dr. Drauzio Varella apoiando a internação compulsória. Mas, pelo menos ao que tudo indica, ele se deu conta de que internação compulsória não é o método mais eficaz para adotar como política pública. Ainda teve a humildade de esclarecer que não faz parte do comitê do governo por não ser um especialista no assunto.

Todavia, o apoio às ações da polícia como forma de resolver as questões da Cracolândia demonstra como ainda são recentes os ganhos da Reforma Psiquiátrica e como o caminho a seguir é longo e tortuoso. Nesses momentos que se vê a importância da ampliação dos serviços de cuidado do CAPS, que fazem um atendimento diário, assim como outras ferramentas, como consultórios de rua e unidades de atendimento transitório. Mais que isso, é necessário que exista uma equipe preparada para lidar profissionalmente com os casos e não obedeçam aos dogmas dos pressupostos médicos de séculos passados e ideologias travestidas de pseudociência.

Referências

Caso haja interesse no aprofundamento das questões acima, seguem algumas leituras, além de muitas outras disponíveis na internet:

Foucault, M. A história da loucura na Idade Clássica.

Foucault, M. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão.

Szasz, T. A Fabricação da Loucura.

Ficou interessado(a)?

O tema é bastante cativante e muitas são as possibilidades de explorá-lo. A literatura é vasta, os estudos igualmente. Apesar da complexidade do assunto, é possível torná-lo um pouco menos complicado quando apelamos para as telonas. Não sei vocês, mas para mim é sempre ótimo poder aprender através dos filmes. Pensando nisso, separamos oito filmes para vocês assistirem e aprenderem ainda mais sobre a loucura e a luta antimanicomial. Boa sessão!

#8: Luz, Câmera, Inclusão... (Dino Menezes, 2017)

Trecho do filme Luz, Câmera, Inclusão, que trata sobre a luta antimanicomial.

O documentário volta à década de 1980 para contar a história de uma Casa de Saúde em Santos, a Casa Anchieta, conhecida popularmente como "Casa dos Horrores". Dentro, via-se um pouco do que foi exposto sobre a precariedade dos serviços lá prestados. O intuito é divulgar como os manicômios espalhados pelo Brasil eram marcados pelo descaso com os internos: superlotação, falta de profissionais e maus-tratos. O documentário está disponível publicamente no YouTube e pode ser acessado através do link: https://www.youtube.com/watch?v=HxKmNlRiu1Y.

#7: Uma Mente Brilhante (Ron Howard, 2002)

Poster do Filme Uma Mente Brilhante, com Russell Crowe

Existe no senso comum a ideia de que todos os gênios são loucos. O filme retrata a história de John Nash (Russell Crowe), um professor de matemática que tem dificuldade de distinguir aquilo que é real do que é fantasia. Diagnosticado com esquizofrenia, o professor e sua mulher sofrem com as consequências dos sintomas e procuram por tratamento.

#6: Ilha do Medo (Martin Scorcese, 2010)

Trecho do filme Ilha do Medo, onde aparecem Mark Ruffalo e Leonardo DiCaprio

Edward (Leonardo DiCaprio) e Chuck (Mark Ruffalo) são chamados a viajar ao Shutter Island Hospital para investigar o desaparecimento de uma paciente, mas o que encontram por lá são médicos agindo sem ética e realizando experimentos proibidos. Muitas dificuldades para a solução do caso precedem um furacão que impossibilita que os dois saiam da ilha.

Na ala dos pacientes mais perigosos, você vai tomar susto, mas Ilha do Medo não é um filme de terror. Existem momentos de tensão e momentos muito bem contracenados pelos brilhantes atores. O filme é realmente impactante, não apenas pelo incrível desfecho, mas também por retratar situações bizarras, como cirurgias de lobotomia.

#5: Garota, interrompida (James Mangold e Jonathan Kahn, 1998)

Screenshot do filme Garota Interrompida

Estrelado por Angelina Jolie e Wynona Ryder, o longa  retrata a vida de mulheres internadas em um hospital psiquiátrico. Susanna (Wynona Ryder) é diagnosticada com "Ordem Incerta de Personalidade" e encontra Lisa (Angelina Jolie) e mais garotas no hospital em que vive pelos próximos dois anos.

Na presença de mulheres sedutoras, Susanna enfrenta duras situações em que a fantasia e a realidade não são mais tão separadas assim. A vida no hospital psiquiátrico envolve o uso de medicação e outros tratamentos abusivos na tentativa de frear os impulsos destrutivos das garotas.

#4: Eu, Pierre Rivière, que Degolei minha Mãe, minha Irmã e Meu Irmão (René Allio, 1976)

Imagem de Pierre Rivière, do filme homônimo.

Essa dica vai para aqueles que gostam de cinema alternativo e não se incomodam com o fluxo lento do encadeamento das cenas.

O ano é de 1835. O filme conta o relato de um jovem que é condenado por matar a golpes de foice sua mãe grávida, sua irmã e seu irmão. A história gira em torno do testemunho que o rapaz escreveu durante sua estadia na prisão, como forma de esclarecer as causas de seu feito. O filme conta com Claude Hébert como protagonista.

Michel Foucault tem uma coletânea organizada sobre o caso, contando detalhadamente o testemunho de Pierre Rivière e analisando-o com outros intelectuais. O filme não envolve a temática da luta antimanicomial, mas é interessante de perceber como, em determinado momento histórico, os poderes judiciário, psiquiátrico, religioso e até imperial debatem entre si para chegar ao veredicto sobre a condição mental do garoto.

#3: Laranja Mecânica (Stanley Kubrick - 1971)

Pôster do Filme Laranja Mecânica

Stanley Kubrick traz nesse filme a vida de Alex, interpretado por Malcolm McDowell, um jovem punk da cidade de Londres que se droga com os amigos. O jovem gosta de criar confusões, usar a violência e cria convulsão na ordem governamental.

Até que então o Estado resolve intervir na vida pessoal dos indivíduos e lança um plano de educação aos delinquentes. O objetivo: poupar reservar futuras. O plano envolve uso de técnicas intrusivas para remodelamento de comportamento: um pouco parecido com as políticas de internação compulsória.

O resultado dessa atitude governamental você confere tanto no filme quanto no livro.

#2: O Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodanszky - 2000)

Trecho do filme Bicho de Sete Cabeças, estrelado por Rodrigo Santoro

A história de Neto, um garoto brasileiro, tem um desfecho trágico: seu pai o interna ao encontrar um cigarro de maconha em seu casaco. Por ser um rapaz com comportamentos desviantes aos olhos dos pais, fica cada vez mais evidente que a internação apareceu apenas para dar um basta aos problemas causados pelo garoto.

Mesmo sem um diagnóstico clínico que indicasse a necessidade de internar Neto, ele fica mais tempo do que devia em uma instituição, vivenciando os métodos contraditórios de tratamento. No contato com os outros internos, ele começa a entender como funciona o local e como fazer para sobreviver.

O filme foi amplamente premiado e chegou à concorrer ao Oscar na categoria "Melhor Filme Estrangeiro".

 


# 1: Nise - O Coração da Loucura (Roberto Berliner, 2015)

Poster do Filme Nise - O Coração da Loucura

Dirigido por Roberto Berliner, o filme brasileiro lançado em 2015 conta com Glória Pires no papel da psiquiatra Nise da Silveira. Baseado em fatos reais, o filme traz a história das dificuldades que Nise enfrentou quando propôs aos colegas formas alternativas para o tratamento da esquizofrenia, de forma a eliminar o eletrochoque e a lobotomia.

Como suas técnicas não foram aceitas pela maioria dos outros médicos, restou a ela trabalhar com o Setor de Terapia Ocupacional. Através de expressões artísticas, Nise viu que seus pacientes conseguiam se comunicar através de seus quadros e esculturas.

Ancorada nas teorias de Carl Gustav Jung, psicanalista suíço, ela manteve correspondências com ele sobre as descobertas que havia feito sobre o que ela chamou de "pinturas do inconsciente". Seu trabalho é belíssimo e extremamente humano, vale a pena conferir o filme.

 

E você? O que pensa sobre isso tudo? Lembra de mais algum filme que retrata o que discutimos aqui? Deixe um comentário!

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