Sobre Mímesis

O que é mímesis?

Mímesis é, antes de tudo, um conceito estético, presente em muitos momentos da vida. Imitação, mímica, representação, apresentar-se, expressar-se, assemelhar-se... Apesar de inicialmente se restringir ao campo artístico, mímesis também é um conceito crítico e de desenvolvimento. Aprendemos a nos comportar através da observação e imitação dos nossos semelhantes, obedecendo às normais sociais.

A partir do momento que damo-nos conta de que estamos no mundo, fazemos arte para imitar a vida - ou seria a vida que imita a arte?

Afinal, por que Mímesis?

Filosofia

Aqueles que inicialmente versaram sobre suas qualidades foram Platão e Aristóteles. O primeiro deles, para rebaixá-la enquanto forma infiel de conhecimento da realidade; já o segundo, para conferir sua centralidade no fazer artístico.

A teoria platônica sobre a realidade é bastante conhecida: diz ele que vivemos em um mundo de aparências e sombras, sendo-nos impossível conhecer a verdade que se expressa apenas em um mundo metafísico, o que ele chamou de mundo das ideias. Para ele, a arte deveria buscar os valores verdadeiros do mundo superior, mas, ao invés disso, procura imitar o mundo sensível, resultando em uma dupla-cópia. Sua posição coloca a arte como um simulacro em função da cópia infiel do mundo sensível, que por sua vez é uma cópia do mundo das ideias.

Foi Aristóteles quem, mesmo discípulo de Platão, recusou a tese de seu mestre para dar um novo valor ao conceito de arte. Em seu livro Poética, o filósofo afirma que a arte é mímesis, pois imita caracteres, emoções e ações. Através da arte superior, seria possível encontrar a catarse, isto é, a purificação das emoções em decorrência do efeito artístico. Para que isso aconteça,  a arte não trata de narrar as coisas como elas aconteceram, como faz o historiador; o poeta é aquele quem narra aquilo que poderia acontecer.

mimesis e filosofia

Psicanálise

Fazer um paralelo com a psicanálise não é de todo difícil: em sua criação, Sigmund Freud herdou de Breuer o método catártico para a cura de suas pacientes histéricas. Ele acreditava que, através da fala em períodos de auto-hipnose, os pacientes poderiam relembrar situações infantis traumáticas e reviver sentimentos atrelados às lembranças. Quando essa recordação era trazida para a consciência, o sintoma ao qual a recordação se ligava reduzia drasticamente.

Freud começou a psicanálise através do estudo de mulheres histéricas. Ele percebeu que uma das características dos sintomas histéricos era o mimetismo que essas mulheres estabeleciam entre si e passavam cada uma a sofrer dos sintomas das outras - é a mimetização entre essas mulheres que permite que o advento da histeria coletiva aconteça!

Futuramente o método catártico é abandonado por Freud por suas falhas e surge o método da associação livre com algumas características herdadas de sua técnica anterior. O que está presente desde o início da psicanálise é a escuta diferenciada do sofrimento e do mal-estar. Segundo Freud, o mal-estar está atrelado ao processo de sociabilidade, sendo indissociável de nossas vidas em sociedade. É por esse caminho que se enaltece o caráter trágico da psicanálise, retomando o sentido que os gregos davam à palavra.

Para que o herói das tragédias gregas encontre paz em sua jornada, ele precisa visitar seus medos e vivenciar situações de perigo. Somente com a solução de seus conflitos que haverá a salvação. Nesse sentido, paciente e terapeuta entram juntos em uma jornada de herói para encontrar luz no fim do túnel.

Arte

Como um campo de saber fundamentado na cultura ocidental, Freud sabia que a psicanálise podia se estender para além do contexto clínico em que originalmente surgiu, culminando em profícuas análises sociais e artísticas feitas pelo próprio pai da psicanálise. De fato a arte conta uma história sobre o seu tempo, sobre o artista e sobre si. Ela é uma produção genuína de conhecimento humano e elucida, através de suas metáforas, muitas coisas sobre a ciência e o Ser. Não é à toa que dizem por aí que a arte toca os humanos mais profundamente do que a ciência, justamente por ser uma forma de se encontrar com o belo e suspender a tormenta da realidade.

Tendo em vista a centralidade do caráter mimético na produção artística, seja ela qual for, Mímesis é um blog sobre os entrelaçamentos entre a filosofia, a psicanálise e as artes. Não se trata de reduzir um campo ao outro, mas pensar de que forma eles se coadunam e permitam uma divulgação valiosa sobre seus preceitos. Em tempos pragmáticos em que todos os problemas são pretensamente solucionados com uma pílula ou um clickMímesis é um respiro revolucionário na ordem imposta, resgatando o pensamento e a beleza para o centro do ser humano, assim como deve ser.

mímesis

Como tudo começou

O interesse pelos campos da Filosofia e das Ciências Humanas é bastante relativo durante os tempos. Se antigamente o conhecimento era buscado para usufruir de uma vida plena, o mesmo não se pode dizer dos tempos atuais.

O conhecimento como um todo sempre esteve circunscrito a um número restrito de pessoas que dele se utilizavam para garantir poder e soberania. Se hoje a divulgação de ideias é mais dinâmica se comparada ao passado, isso não significa que haja uma popularização ou democratização do acesso.

Quais motivos?

Em partes pela difícil linguagem que se empregam nos ambientes tradicionais de divulgação científica, como é o caso da Academia - falo das Universidades e de eventos científicos. Porém, também por uma pretensa falta de credibilidade que o cenário político e social do País trouxe para aqueles que não sabem onde buscar informação e nem mesmo se a fonte é confiável.

Esses fatores são suficientes para afastar a população de meios informativos, optando por plataformas cujas características são rapidez e superficialidade ao invés de investir na leitura de conteúdo mais aprofundado. Dentre outros campos, a Filosofia aparece distante da realidade dos cidadãos, sendo descartada facilmente em detrimento de outros conteúdos mais apelativos. No entanto, por ser a mãe da ciências, a Filosofia traz explicações convincentes para os fenômenos atuais e pode se mostrar positivo conhecê-la mais a fundo.

Nós entramos aqui.

Embora os períodos de crise desestabilizem as ideologias vigentes e provoque descrédito, existe paralelamente uma onda de busca por novos paradigmas e conteúdos que expliquem tudo aquilo que aparentemente se mostra sem nexo. Nessa trilha, é evidente que um retorno à Filosofia é vantagem: ela busca explicações não apenas para os fenômenos sociais, mas também para explicar os sentimentos e incertezas decorrentes dessas condições externas. De onde viemos e para onde vamos são temas que nunca deixam de ser populares porque, embora muito já se tenha dito sobre isso, todos nos confrontamos com essas questões ao menos uma vez em vida.

Frente a esse cenário, a ideia de articular a Filosofia e Psicanálise em um blog aparece em um momento de crise política e social, culminando também em uma crise de identidade bastante atual. O número de patologias cresce nos manuais psiquiátricos e cabe a nós tentar compreender as causas desse aumento e entender o que são essas novas formas de subjetivação e como elas se expressam.

Nossa missão e objetivo

Mímesis surgiu em virtude disso tudo. A divulgação de conteúdo comprometido com a ética é nossa missão. Promover discussão, reflexão e informar é um objetivo laborioso, mas, antes de tudo, necessário.

Veja o que estão dizendo sobre Mímesis

Entrevista com Claudio Bertolli, com os dizeres: Ä polifonia é fundamental para vivermos o mundo atual e, para tanto, a divulgação de saberes, análises, projetos, sonhos e fantasias ocupa um papel vital na modernidade tardia.
Prof. Dr. Claudio Bertolli Filho fala sobre a importância do espaço criado por Mímesis.
Flavia Arielo comenta que sem mímesis não há humano: onde está o homem, ali está a assimilação. Expresse-se!
Profa. Flavia Arielo ressalta o caráter fundamental de Mímesis para o ser humano.

Sobre mim

Com o apoio de muitos pensadores, filósofos, artistas, amigos, conhecidos e leitores, por trás desse blog existe alguém que seleciona, articula e divulga com grande prazer aquilo em que acredita.

Renan Rossini

Idealizador e Fundador

Filósofo, psicólogo e escritor. Atualmente é mestrando no Programa de Pós-Graduação do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP).

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